6# GERAL 18.12.13

     6#1 GENTE
     6#2 ESPORTE  COMO ELES ACABARAM COM ISSO
     6#3 ESPAO  A RECONQUISTA DA LUA
     6#4 ESPECIAL  IR  ALGO DE NOVO NO AR
     6#5 HISTRIA  UM TRISTE ADEUS
     6#6 EXPOSIO  O JOALHEIRO DOS REIS  E DAS RAINHAS
     6#7 IDEIAS  O GURU DA IOGA QUENTE
     
6#1 GENTE
COM TODO O RESPEITO, QUASE UM CARNAVAL
A cerimnia em memria de Nelson Mandela feita especialmente para acomodar as homenagens de lderes estrangeiros mostrou a admirao excepcional que ele inspirava. Mostrou tambm a capacidade que Mandela tinha de fascinar polticos, membros da realeza e celebridades, e como essa turma, olhada de pertinho, produz as mesmas cenas dos mortais comuns, mesmo em clima fnebre.
Est todo mundo compungido, at que algum saca o celular, junta quem est em volta, a turma sorri e a foto do enterro vai para as redes sociais. Foi mais ou menos o que fez a primeira-ministra da Dinamarca, HELLE THORNING-SCHMIDT. Como ela  a chefe de governo mais bonita do mundo no momento, o presidente BARACK OBAMA e DAVID CAMERON, o subitamente animado primeiro-ministro britnico, foram todos dentes e dedos na hora da selfie  designao da foto de si mesmo que virou a palavra do ano do Dicionrio Oxford. O que tinha no centro era espetacular, mas o que estava na borda definiu a imagem: a cara pouco amistosa de MICHELLE OBAMA. Adiantou o fotgrafo dizer que no era nada disso? Tambm no teve nada a ver a expresso da antecessora de Michelle, LAURA BUSH. Mas todo mundo pensou exatamente a mesma coisa quando viu o ex-presidente GEORGE W. BUSH derretido em conversa com RANIA, a rainha da Jordnia. Embora em fase de recolhimento por motivo de instabilidade poltica, Rania aproveitou e lanou sua conta no Instagram com fotos do memorial. E o senhor de prpura  direita de Bush  o arcebispo DESMOND TUTU, outro gigante da luta contra o apartheid. Enquanto estava l, a casa dele foi assaltada, uma particularidade sul-africana com a qual muitos brasileiros podem se identificar. O atraso e a desorganizao tambm, mas a presidente DILMA ROUSSEFF fez a sua parte para se ater ao programa e manter a imagem. O correto casaquinho creme de crepe de seda e renda, da sua estilista de Porto Alegre, Lusa Stadtlander, j tinha sido usado antes. Trs bobes grandes de velcro com um secador rpido e, na hora de chegar  cerimnia, um guarda-chuva resolveram a questo do cabelo. Problema inexistente para mais uma das poderosas perucas de NAOMI CAMPBELL, que frequentava o crculo ntimo em torno de Mandela. Foi numa festa dada por ele que a modelo inglesa conheceu Charles Taylor, na poca ditador da Libria. Encantado, ele mandou um pacotinho de diamantes, que depois encrencou a j complicada vida de Naomi. Outras duas beldades presentes so da terra. A agora princesa CHARLENE, ex-campe sul-africana de natao, casada com Albert de Mnaco, seguiu  risca o protocolo para atos fnebres  preto e prolas , mas inovou ao levar como assistente CORINNA ZU SAYN-WITTGENSTEIN, a alem que quase fez o rei Juan Carlos, da Espanha, perder a majestade. Parecida no nome, no fsico e no penteado com Charlene, a atriz CHARLIZE THERON chorou de emoo quando conheceu Mandela, mas estava sorridente ao lado de BONO VOX. Nem todas as celebridades, talvez nem mesmo a foto de Obama com a dinamarquesa, se compararam em destaque ao estranho caso de THAMSANQA JANTJIE, o falso tradutor para a linguagem dos surdos. Ele tem uma ficha policial com acusaes de homicdio, estupro e assalto, mas disse que sofre de surtos esquizofrnicos e teve vises na hora em que fazia a falsa traduo inventada a 1 metro de Obama. "Vi anjos chegando", afirmou. Ou talvez o santificado Mandela tenha baixado para evitar coisa pior. 


6#2 ESPORTE  COMO ELES ACABARAM COM ISSO
Cenas brbaras como as da semana passada em Joinville eram rotina na Inglaterra h trinta anos. Mas, pondo os vndalos na cadeia e construindo estdios modernos, as autoridades jogaram os briges para escanteio.
ALEXANDRE SALVADOR E PIETER ZALIS

     O futebol  o esporte nacional. Ns o demos ao mundo. Mas sua imagem dentro do nosso pas foi muito manchada." Essa definio, triste e precisa, sintetiza o estado atual do futebol brasileiro. No h dvida: de costas para o gramado, 2013 foi um ano perdido. Em fevereiro, um sinalizador disparado pela torcida do Corinthians matou um garoto de 14 anos em Oruro, na Bolvia. Doze brasileiros foram presos, mas por falta de provas (e pela conveniente confisso de um torcedor menor de idade) todos foram liberados. Para encerrar a temporada, no domingo 8, torcedores do Atltico-PR e do Vasco promoveram uma batalha no estdio de Joinville, em Santa Catarina, na ltima rodada do Campeonato Brasileiro. Ningum morreu, embora a brutalidade das duas torcidas fosse suficiente para reverberar as estatsticas da violncia no futebol  foram trinta mortes apenas neste ano. Lembra-se da definio que abre esta reportagem? Explica o futebol brasileiro, mas foi usada originalmente para descrever a situao da Inglaterra nos anos 1980, que era ainda pior do que a que se v por aqui a seis meses do incio da Copa do Mundo. 
     H trinta anos, a violncia dos torcedores ingleses mais inconsequentes, conhecidos como hooligans, provocou a excluso das equipes do pas das competies europeias por cinco anos. A razo foi a morte de 39 torcedores da Juventus, da Itlia, em confronto com aficionados do Liverpool, em um jogo da Copa dos Campees da Europa, disputado no Estdio de Heysel, em Bruxelas, na Blgica, em 1985. Os hooligans causavam terror nas ruas e nos campos. Ocupavam as reas mais populares dos estdios, os chamados terraces, e de l promoviam o caos, com sesses de pancadaria e invases de gramado. A ento primeira-ministra britnica, Margaret Thatcher, tratou de lidar com o problema  sua maneira: forte represso policial e isolamento dos hooligans. Para conter os arruaceiros, foram instaladas grades pontiagudas, eletrificadas e com arame farpado no topo. Engaiolados, os torcedores se apinhavam como se estivessem enjaulados. A situao foi se deteriorando at 1989, quando ocorreu a maior tragdia. Na semifinal da Copa da Inglaterra, uma massa de torcedores do Liverpool que tentava chegar ao estdio de Hillsborough, um dos mais modernos do pas  poca, foi forando a entrada pelos portes. A superlotao, aliada  falta de sinalizao, esmagou os torcedores contra a grade que separava o campo das arquibancadas. Noventa e seis pessoas morreram esmagadas. 
     As autoridades britnicas decidiram reagir. O magistrado Peter Murray Taylor foi encarregado de preparar um relatrio sobre a tragdia.  dele a frase inicial deste texto, que associou a violncia a uma marca indelvel no pas que inventou o futebol. Em seu relatrio final, de janeiro de 1990, Taylor props uma transformao radical no futebol ingls. "O comportamento e a segurana da multido esto diretamente relacionados  qualidade das acomodaes e instalaes", concluiu. Desde Hillsborough, trinta estdios foram construdos e centenas foram reformados (nesse aspecto, o legado das belas arenas erguidas para a Copa de 2014 pode ser muito bom). Os terraces, habitat favorito dos hooligans, foram preenchidos com cadeiras. Os estdios dos times de primeira e segunda divises passaram a ter assentos para todos os espectadores. 
     Aliada  reforma dos estdios, foi criada uma poltica de preveno da violncia. Em vez de tentar conter os baderneiros depois do incio dos confrontos, a polcia passou a identific-los previamente. Todos os times ingleses tiveram de instalar em seus estdios sistemas de monitoramento por cmeras. Com esse aparato, a polcia faz uma varredura virtual  procura de torcedores briges. Assim que um hooligan  localizado,  retirado do estdio. O embate entre policiais e torcida foi substitudo pelo trabalho discreto de inteligncia. H um oficial escalado para estudar o comportamento dos torcedores de cada clube profissional ingls. Ele informa  policia a identidade daqueles potencialmente mais perigosos. 
     To ou mais importante do que a mudana nas normas  a efetiva aplicao da lei. Na temporada 2012-2013, houve 2456 prises de torcedores. A maioria dessas detenes resultou em Ordens de Banimento do Futebol (FBO, na sigla em ingls). O torcedor que for pego brigando recebe uma FBO e  obrigado a ficar de trs a dez anos afastado dos estdios. Para garantir o cumprimento da pena, ele tem de ficar em uma delegacia enquanto seu time joga. Quando a seleo inglesa atua fora do pas, o vndalo  obrigado a entregar seu passaporte cinco dias antes do jogo. Quem desrespeita a regra  preso e processado. Simples assim. Basta cumprir a lei. 
     Pases que seguiram o exemplo ingls, como Alemanha e Espanha, tambm conseguiram controlar seus hooligans. "O exemplo ingls foi decisivo para todo o futebol europeu", disse a VEJA o alemo Heinz Palme, diretor do Centro Internacional para a Segurana no Esporte. "A Inglaterra reforou a tese de que, quando a casa est limpa e organizada, os visitantes tendem a mant-la assim." Outro pas que sofre com brigas nas arquibancadas, a Turquia, inovou. Em 2011, proibiu a entrada de homens adultos como punio a times cuja torcida se envolvesse em brigas. Apenas mulheres e crianas puderam frequentaras arquibancadas. Mas a medida foi incua. Os homens voltaram e as brigas prosseguiram. 
     No Brasil, duas questes explicam a violncia persistente, cujo pice se deu na ltima rodada do Campeonato Brasileiro: as penas brandas previstas no Estatuto do Torcedor e a impunidade. Com isso, crimes graves acabam sem a priso dos culpados. "A diferena  que no Brasil impera a impunidade. Na Europa, os torcedores tambm extrapolam os limites, mas so presos", diz Maurcio Murad, professor de sociologia dos esportes da Universidade Salgado de Oliveira. Um exemplo dessa impunidade foi o banimento, em 1997, das torcidas Mancha Verde (do Palmeiras) e Independente (do So Paulo), que se envolveram em brigas que deixaram mortos. No mesmo ano, os mesmos vndalos voltaram aos mesmos estdios com os mesmos smbolos e as mesmas bandeiras  apenas alteraram o nome e a razo social das torcidas. "Alm da impunidade, nos pases europeus no existe essa relao promscua entre clubes e vndalos de torcidas organizadas", acrescenta Murad. Um exemplo dessa promiscuidade  verificado no Vasco. A direo do clube bancou 75% dos gastos da viagem da torcida Fora Jovem a Joinville. Murad faz desde 1999 um levantamento de mortes em brigas de torcidas. E constata que a situao s piora: "At 2008, a mdia era de 4,8 mortes por ano. Nos ltimos cinco anos, subiu para dezesseis". 
     Na quinta-feira passada, uma reunio no Ministrio do Esporte foi prdiga em discursos e incua em medidas concretas. Uma possibilidade em discusso  tirar pontos dos clubes cujos torcedores se envolverem em brigas. Hoje a punio ao clube se limita a fazer com que a partida se realize a uma distncia de mais de 100 quilmetros de sua sede  o jogo em Joinville j era uma punio ao Atltico por uma briga anterior dos mesmos torcedores. Na sexta 13, foi definida a punio aos clubes: o Vasco perdeu oito mandos de campo e o Atltico-PR, doze. "O clube teme mais perder 3 pontos do que 3 milhes de reais. A cobrana por 3 pontos ser muito mais dura pela torcida em cima dos dirigentes. O dinheiro ele pode pedir emprestado", disse o ministro Aldo Rebelo. A violncia nos estdios  parte da violncia da sociedade. Para que ambas sejam enfrentadas, so necessrios os mesmos instrumentos: leis duras e seu cumprimento efetivo. Como fizeram os ingleses. 

DOIS GRAUS DE SEPARAO
O cenrio da barbrie pode at mudar, mas alguns personagens so sempre os mesmos.
Cleuter Barreto Barras, membro da torcida Gavies da Fiel, foi preso em fevereiro na Bolvia por suspeita de participao na morte do garoto Kevin Beltrn Espada, de 14 anos. 
Apenas 23 dias depois de libertado, em agosto, ele estava em Braslia, na partida entre Corinthians e Vasco. Cleuter foi flagrado no meio de uma colossal briga com a torcida vascana. 
E quem estava entre os briges? Jonathan Fernandes, o Duda, membro da torcida Fora Jovem, do Vasco, que no domingo 8 foi flagrado desferindo socos e chutes em torcedores do Atltico Paranaense, em Joinville.

COM REPORTAGEM DE LESLIE LEITO E ALEXANDRE ARAGO


6#3 ESPAO  A RECONQUISTA DA LUA
Mais de trs dcadas depois dos tempos ureos da corrida espacial, orientais e ocidentais voltam a esquentar a disputa pela explorao do satlite.
FILIPE VILICIC

     Doze astronautas  todos americanos  j caminharam pelo solo lunar. Eles cumpriram o feito em um perodo de apenas trs anos, entre 1969 e 1972. O mais recente foi Eugene Cernan, no pice da derradeira misso Apollo 17. A corrida pela Lua marcou a Guerra Fria como uma competio entre os Estados Unidos e a antiga Unio Sovitica para ver quem ostentava o maior salto tecnolgico para a humanidade, ainda que fossem pequenos passos para os homens que l estiveram. Apesar de os soviticos terem sido os primeiros a enviar uma sonda ao satlite, em 1959, e terem fechado a disputa em 1976, com o lanamento da espaonave Luna 24, perderam a batalha. Afinal, nunca fizeram uma misso tripulada para l. Desde ento, porm, o interesse pela Lua (e por aventuras espaciais, em geral) caiu drasticamente. Aos fascinados pela explorao do cosmo, uma boa notcia: esse cenrio acaba de sofrer uma reviravolta e tudo indica que haver uma nova corrida pela Lua. Desta vez, a disputa  entre Oriente e Ocidente. Mudou tambm o objetivo: estabelecer a primeira colnia humana fora da Terra. 
     Os chineses esto na frente. Provaram isso com o lanamento da primeira misso com a meta de pousar na Lua desde a dcada de 70. A sonda Chang'e 3 (Change  a deusa que representa a Lua na mitologia chinesa) saiu da Terra no ltimo dia 1 e, se tudo correr bem, tocar a superfcie lunar neste sbado, 14. A espaonave  equipada com sensores que analisaro, em detalhes, a estrutura e a composio do solo at a profundidade de 30 metros  um recorde para a astrofsica. A meta real, contudo,  outra. O governo chins quer marcar territrio no espao, mostrando que detm poderio tecnolgico equivalente ao dos Estados Unidos. Para isso, j planeja sua primeira misso tripulada ao satlite. Do Oriente, ainda esto nessa disputa ndia e Japo. Os indianos pretendem enviar, nos prximos anos, uma sonda motorizada para circular pela Lua. A Jaxa, a agncia espacial japonesa, quer uma misso tripulada em 2020 e sonha em estabelecer uma colnia humana fixa nos anos 2030. 
     A repentina concorrncia oriental despertou os americanos (e seus principais associados na empreitada de se aventurar pelo universo, os europeus). Desde julho de 2011, quando foram aposentados os nibus espaciais da Nasa, os Estados Unidos passaram a apostar em parcerias com empresas nas incurses a regies mais prximas da Terra. Assim, a Nasa pode focar o grosso de seu oramento em planos ambiciosos, como levar humanos a Marte, iniciativa que promete concretizar em torno de 2030. A mudana de rumo teve efeitos positivos. Um modelo de espaonave a ser desenvolvido em 2015 em um concurso promovido pelo Google levaria  Lua uma estufa com uma srie  de sementes que devem crescer  base da luz solar e de irrigao feita por um dispositivo automtico. Diz o astrofsico Roberto Dias da Costa, da Universidade de So Paulo: "A Lua  o laboratrio onde cientistas podem estudar como explorar o restante do sistema solar". O astro ainda tem mais um propsito seminal. Entend-lo ajuda a compreender melhor como se formaram outros corpos rochosos do cosmo. Um, em especial: a Terra  da qual se originou a Lua, num impacto entre a formao ancestral de nosso planeta e outro corpo celeste. 
     Em paralelo  retomada dessa corrida, astrofsicos voltam a dar mais ateno aos estudos sobre o nico satlite natural de nosso planeta. Uma pesquisa publicada pela Nasa no ms passado, por exemplo, lanou luz sobre um de seus mistrios mais antigos: por que, afinal, h tantas crateras na Lua? Os astrofsicos j sabiam que a maior parte dessas fendas foi formada h 4 bilhes de anos, numa chuva de asteroides. O que se descobriu agora  o motivo de a face da Lua constantemente voltada para nosso planeta possuir crateras bem maiores  com mais de 320 quilmetros de extenso  do que as da virada na direo oposta. Pela anlise de dados enviados por sondas que orbitaram o satlite, a equipe da Nasa concluiu que a face voltada para ns tem uma superfcie mais fina, consequncia de ter sofrido com intensas erupes vulcnicas. Por isso, asteroides abriram crateras com o dobro da dimenso na superfcie frgil. "Desde tempos imemoriais, a humanidade olha para cima para tentar compreender a Lua", disse a geofsica Maria Zuber, autora do estudo. Os astrofsicos tm outra aposta  se decifrarmos todos os enigmas lunares, saberemos tambm como se deu a formao do sistema solar, da Terra e teremos mais indcios para compreender como nasceu o universo. A corrida pela Lua , portanto, resultado da procura por responder a uma antiga indagao: "Como tudo surgiu?". 

A AGRICULTURA LUNAR 
Como a Nasa pretende plantar agrio, manjerico e nabo na superfcie da Lua, em misso que ter incio em 2015.
1- O foguete, que ser construdo por uma empresa privada, sair da Terra acoplado a um mdulo com uma estufa de vidro de 1 quilo. A estufa conter 100 sementes de agrio, dez de manjerico e dez de nabo, armazenadas num filtro de papel e j plantadas em recipientes com terra
2- Ao chegar prximo  Lua, o mdulo se separar do foguete e pousar na superfcie, onde liberar a estufa
3- A estufa j estar pronta para o crescimento das plantas, que devem sobreviver  base de luz solar, nutrientes dissolvidos no filtro de papel que envolve as sementes e gua despejada por um sistema automtico de irrigao 
4- Os vegetais sero monitorados por cmeras filmadoras e sensores, que detectam, por exemplo, a intensidade da luz e o fluxo da gua
5- Os dados enviados  Terra serviro de base para avaliar se as condies do ambiente lunar so favorveis ao estabelecimento de uma colnia humana.

COM REPORTAGEM DE HENRIQUE CARNEIRO


6#4 ESPECIAL  IR  ALGO DE NOVO NO AR
Seis meses depois da eleio que livrou o Ir da triste figura de Mahmoud Ahmadinejad, uma transformao extraordinria ocorre nas ruas da capital. A frente dela, esto milhares de mulheres dispostas a tentar at onde se pode esticar a corda no regime dos aiatols.

     A jovem Shahrzad Akban, de 23 anos, estava estudando na sala quando sua me irrompeu pela porta: "Voc viu como as pessoas esto se vestindo na rua? Parece uma revoluo!". Fazia seis dias que Hassan Rohani havia sido eleito presidente do Ir e estava na cara que alguma coisa tinha mudado na capital do pas. 
     H quase oitenta anos algum diz aos iranianos como eles tm de se vestir  mais precisamente, o que tm de pr na cabea. Nos anos 30, o x Reza Pahlevi, na tentativa de arejar o seu reinado com os ventos do Ocidente, proibiu o uso de turbantes para os homens e o de lenos para as mulheres. Por um perodo, chegou a ordenar que todo iraniano usasse chapu. Quando os aiatols tomaram o poder, em 1979, a lei mudou novamente  o vu passou a ser obrigatrio, sendo o preo da desobedincia uma bateria de chibatadas. Hoje, as regras vetam aos homens o uso de calas curtas, camisetas justas e gravata, o smbolo mximo e execrado da decadncia ocidental. Quanto s mulheres, as que no usam xador  a veste negra que deixa s o rosto e as mos de fora  tm de esconder os cabelos e usar saias compridas ou calas largas cobertas por casacos que vo at o meio da canela. E assim, embalados em figurino islamicamente correto, caminhavam iranianos e iranianas at 15 de junho, quando, contrariando as previses, o clrigo Rohani derrotou o arquiconservador Saeed Jalili  que, no de todo injustamente, chegou a ser comparado ao ditador norte-coreano Kim Jong-un (entre as suas propostas, estava a de dar uma banana para o Ocidente e salvar a economia do pas colocando a populao para fabricar sorvetes). 
     "Na noite em que as pessoas foram s ruas comemorar o resultado das eleies, os casacos j tinham subido e os lenos de cabea descido. Estava todo mundo eufrico", conta a estudante de fsica Khatereh, de 23 anos (ela pede que seu sobrenome no seja publicado). H duas semanas, ela comprou a sua primeira cala legging, aquela bem colada ao corpo, impensvel at h pouco tempo, mas que subitamente comeou a surgir em todas as esquinas de Teer, sobretudo no norte, onde vivem os ricos e a classe mdia. A derrota dos conservadores, o acordo temporrio em que o Ir se comprometeu a suspender seu programa nuclear em troca da retirada de sanes pelas potncias e as falas dos aiatols  ou melhor, o silncio dos clrigos linha-dura  sugerem que o pas pode estar a caminho de deixar as trevas. Os iranianos esto decididos a ver at onde a corda estica. 
     H motivos para otimismo. Desde a posse de Rohani, em agosto, os enforcamentos em praa pblica, antes semanais, caram drasticamente. Presos polticos foram libertados e a odiada polcia da moralidade, que circula em minivans pelas cidades  cata de flagrantes anti-islmicos, praticamente sumiu de cena em Teer. Espera-se para breve a liberao do Facebook e do Twitter, largamente utilizados mas oficialmente bloqueados desde 2009, quando os protestos contra a contestada reeleio de Mahmoud Ahmadinejad eclodiram nas ruas. O poderoso ministro das Relaes Exteriores, Javad Zarif, j usa o Twitter h algum tempo e o prprio Rohani agora tem uma pgina no Facebook. O empenho do clrigo xiita em mostrar sua face moderada  tamanho que na semana passada ele se fez fotografar numa estao de alpinismo de bon de beisebol no lugar do turbante. Os aiatols responderam  cena com um tonitruante silncio. 
     O Ir  hoje o nico Estado do mundo governado por clrigos, tirando o Vaticano. O aiatol Ali Khamenei, lder supremo da nao, tem a ltima palavra sobre tudo o que importa no pas. Ele no  apenas a mxima autoridade do Ir   tambm o Legislativo e o Judicirio contidos numa s pessoa. O que no emana dele, portanto, precisa ao menos ser por ele chancelado  e isso inclui desde o bon de beisebol de Rohani at o acordo com o Grande Sat. Por mais de trinta anos, o dio aos Estados Unidos foi propagado pelos alto-falantes das mesquitas e mantido no leo fervente dos sermes de forma a nunca deixar de borbulhar. 
     Em Teer, a poluda capital do pas, com 8 milhes de habitantes e um dos piores trnsitos do mundo, o antiamericanismo est impresso em painis gigantes espalhados nas paredes dos edifcios, ao lado dos onipresentes retratos dos aiatols Khamenei e Khomeini. Num desses painis, a imagem de Barack Obama aparece ao lado da de Shemr, o infame assassino do terceiro im, Hussein. O texto que acompanha o pster diz que o presidente americano e o grande vilo dos xiitas compartilham um mesmo ttulo: o de traidor do Isl. Mas na vizinha cidade de Qom, a mais religiosa do Ir, tentativas de adequar a paisagem s novas circunstncias j esto em curso. Um outdoor instalado perto da principal mesquita, mostrando a bandeira americana cortada pela frase "Mortes  Amrica", amanheceu na semana retrasada desajeitadamente coberto por um cartaz religioso. 
     Qom, a 150 quilmetros de Teer,  provavelmente a maior incubadora de muls do planeta. Com dezenas de seminrios, tem entre seus mais honorveis ex-alunos o aiatol Khomeini. Fica tambm l o Centro Nacional para Respostas a Questes Religiosas do Ir. Nesse lugar, uma centena de clrigos e seminaristas responde aos milhares de perguntas que fiis de todo o pas enviam por telefone, e-mail ou carta. As questes giram em torno de assuntos como o Coro, histria e, claro, sexo. "Tenho tido sonhos ruins", escreve um jovem de 17 anos. "O que devo fazer para que eles parem de me atormentar?" A resposta dos muls: "Os sonhos tm diversas fontes. Uma delas so as experincias e pensamentos que temos durante o dia. Voc deve parar de pensar em assuntos com os quais tem sonhado. E tambm deve comer menos  noite, pois o estmago cheio propicia esse tipo de sonho". Outro jovem, da mesma idade, quer saber o que fazer para deixar de se masturbar. No site do centro, a resposta  questo est entre as mais lidas de todas  so dezessete conselhos para acabar com o problema. Entre eles: no usar roupas muito justas, no conversar sobre o assunto, evitar comer alimentos como banana, chocolate, tmaras, cebola e pimenta, praticar esportes e no olhar para o prprio corpo quando for se trocar ou tomar banho. A resposta no diverge muito da que certos pastores evanglicos brasileiros dariam ao seu rebanho. A diferena  que, no Ir, esses religiosos esto no poder e determinam o que 75 milhes de pessoas podem ou no podem fazer. 
     E a lista do que no se pode fazer  infinita. Entre as atitudes consideradas no islmicas e hoje sujeitas a punio pela polcia da moralidade, esto: beber, assistir a canais de TV por satlite, andar na rua de mos dadas com algum do sexo oposto com quem no  casado, ser homossexual (transexual pode), ter uma banda de msica no aprovada pelo Ministrio da Cultura, ter um cachorro e passear com ele na rua (leia mais na pg. 134). No governo Ahmadinejad, as vans verdes e brancas da polcia da moralidade chegavam a parar meninas pelo crime de andar de bicicleta. 
     Um dos mais isolados pases do mundo, o Ir  tambm um dos piores do planeta para investir. Os anos de sanes tornaram invivel a mais elementar transao bancria com o exterior. Nenhum carto de crdito conhecido no Ocidente  aceito l e, com exceo de mochileiros, alpinistas e um ou outro aventureiro que se dispe a esperar anos por um visto de entrada, no h praticamente turistas em seu territrio. O passaporte iraniano  um dos menos aceitos no mundo  apenas quarenta pases admitem a entrada de seu portador sem exigncia de visto, contra 146 que recebem o documento brasileiro e 173 o finlands. 
     Na dcada de 70, a situao era bem diferente. Os petrodlares jorravam do solo, e o x Reza Pahlevi s tinha de se preocupar em torr-los em armamentos e festas das mil e uma noites. Ele chegou a comprar da Inglaterra mais tanques Chieftain do que possua todo o Exrcito ingls. Em 1971, ao lado de sua terceira mulher, a imperatriz Farah Diba, recebeu 600 convidados vindos de todas as partes do mundo para celebrar o 2500 aniversrio da monarquia. A festa, estimada em 150 milhes de dlares, teve 25.000 garrafas de vinho e montanhas de caviar imperial, entre outras iguarias, preparadas por chefs trazidos do Maxims de Paris. 
     A administrao calamitosa e corrupta do regime Pahlevi, seguida da revoluo islmica e, mais tarde, da guerra de oito anos com o Iraque, fez o padro de vida dos iranianos desabar. A renda per capita caiu 40% desde 1978. Hoje, a inflao oficial passa dos 30%, mas economistas dizem que  preciso no mnimo dobrar a taxa para chegar a um clculo realista. Entre os jovens, quem no est desempregado  caso de 20% da populao  d duro para se manter sozinho. Um recm-formado em engenharia que consiga emprego em um departamento de governo, por exemplo, o que equivale a encontrar a lmpada de Aladim, vai ganhar uma mdia de 1000 dlares por ms. Dado que o metro quadrado em Teer custa por volta de 7000 dlares e um carro Peugeot modelo 206 no sai por menos de 15.000 dlares, so miserveis as chances de ele poder comprar qualquer coisa a curto prazo. 
     Mesmo assim, o Ir continua entre os trinta pases mais ricos do mundo. O fato de ter uma populao grande, jovem e altamente educada  quase 35% dos jovens de at 25 anos esto na universidade; as mulheres representam 60% desse total  faz dele um dos mais promissores mercados de consumo da atualidade. "Sem as sanes e com a poltica estvel, o Ir pode crescer 7% em dois anos", diz Nader Habibi, professor de economia do Oriente Mdio da Universidade Brandeis, nos EUA. 
     Os principais riscos a ameaar esse sonho: o acordo temporrio fazer gua (o hoje presidente Rohani, como negociador da questo nuclear no governo Khatami, acumulou uma lista de promessas no cumpridas e tratos desfeitos) e a pequena fresta na janela aberta pelo governo se fechar antes que os iranianos vejam a luz do sol. Rohani nunca foi um reformista convicto e est bem longe de ser um Gorbachev. "Ele  um pragmtico e um estrategista, que hoje est seguindo as ordens do lder supremo, Khamenei", afirma o analista Michael Axworthy, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, e autor do livro Revolutionary Iran. "Khamenei, por sua vez, tenta se reposicionar de forma a corrigir sua estratgia, que at agora foi agradar apenas aos conservadores, o contrrio do que fazia Khomeini, hbil para falar com toda a sociedade", diz. 
     Sair de regimes seculares para embarcar em revolues lideradas por grupos religiosos no tem se mostrado uma boa opo. Mas quase ningum acredita que o governo Rohani esteja disposto a fazer o percurso inverso. H chances, porem, de o Ir encontrar o equilbrio em algum lugar no meio do caminho. Figuras influentes como o ex-presidente Mohammed Khatami, por exemplo, este sim um reformista de primeira hora, defendem cada vez mais abertamente a ideia de que os poderes do lder supremo se limitem aos de um guia espiritual, de forma que fique a cargo do presidente da Repblica a tarefa de administrar o pas. Para isso, no entanto, o Ir precisar domar seus mpetos atmicos e, sobretudo, encurtar as rdeas da Guarda Revolucionria, a corporao que controla boa parte da economia nacional. Para o mundo, a (auto)estabilizao do Ir  a melhor das hipteses  vista. Para os iranianos,  a chance de viverem em um pas mais seguro e mais prspero, onde um dia eles podero pr o que bem entenderem na cabea. 

GATAS DA PRSIA  Niloofar Hasanimoghaddam, formada em administrao de empresas, pratica parkour num bairro no norte de Teer. Como o esporte  proibido para mulheres, no h instrutoras nem academias na cidade. ela e duas amigas aprendem as tcnicas assistindo a filmes e vendo os meninos se exercitarem. Niloofar diz que saltar muros e correr sobre tetos faz com que se sinta livre e poderosa.

MULHERES DE TEER - Na poluda e catica Teer, com 8 milhes de habitantes, o sul  dos pobres e o norte, dos ricos. Quanto mais se caminha para cima, mais se percebe o vu das mulheres escorregando para baixo da cabea. Ningum ainda se atreve a sair de casa sem o leno, mas a face feminina, devagar, deixa de ser um segredo. Na imagem abaixo, uma produtora prepara a estudante de qumica Ava Kasehgari para uma sesso de fotos de moda. At h pouco tempo, nenhum anncio podia exibir rostos de mulher. 

SINAIS CONTRADITRIOS - Toda semana, milhares de homens e mulheres - eles de barba, elas de xador, os atestados ideolgicos de apoio ao regime - se renem na Universidade de Teer para ouvir os aiatols proferirem o sermo de sexta-feira. A foto acima mostra a cerimnia do dia 29 de novembro, a primeira realizada depois que o Ir fechou o acordo de suspenso do seu programa nuclear em troca do alvio das sanes. No sermo, os muls no criticaram o acordo, mas disseram que ele no significa que o Ir abrir mo dos "seus direitos nucleares". Nas ruas e nos seminrios de Qom, os clrigos solicitados a falar do assunto repetem o mesmo texto. 

HORA DE MUDAR - No bazar de Teer, a esperana dos comerciantes, como esse vendedor de relgios,  que o acordo temporrio que suspendeu algumas das sanes impostas ao pas se torne permanente. Mas, para isso, o Ir ter de provar que desistiu da bomba.

TRANSEXUAL PODE, HOMO, NO - No Ir, as cirurgias para mudana de sexo so subsidiadas pelo governo desde os tempos de Khomeini, que teria se convencido da existncia de pessoas que "nascem no corpo errado". Sepan, o jovem da foto, aguarda a definio da data em que se transformar em "Raha". Diz que  constantemente abordado na rua por policiais, mas que agora eles esto instrudos para tratar com mais educao gente como ele. "Perguntam: Transexual ou homossexual'. Eu mostro os documentos da cirurgia que vou fazer e eles me liberam." O homossexualismo continua ilegal no Ir, e a pena para a sua prtica  a forca. 

INCUBADORA DE AIATOLS - Foi na cidade de Qom, com dezenas de seminrios, que o aiatol Khomeini estudou. L, todas as mulheres usam xador. E, na fila do po, tm de esperar os homem serem servidos primeiro. 

JOGO DOS SETE ERROS
A desenhista grfica Asal Rastegar, de casaco vermelho, conversa com amigas numa festa no norte de Teer. Pelas leis iranianas, o grupo da foto est infringindo sete regras: as mulheres esto sem vu diante de um homem ( esquerda, com a imagem refletida no espelho), algumas vestem calas justas, outras usam roupas coloridas, duas esto com os braos expostos, uma fuma "shisha", ou narguil. Alm disso, o encontro aconteceu no Muharram, o ms sagrado dos xiitas, quando festas so proibidas. Por ltimo, o Isl considera os ces impuros e probe que muulmanos os tenham em casa. Piter, o terrier de Asal que aparece na foto, vive praticamente clandestino dentro de casa. 


6#5 HISTRIA  UM TRISTE ADEUS
O indito dirio de uma integrante da corte de dom Pedro II narra o clima de melancolia e saudade que marcou o crculo ntimo da famlia imperial brasileira no exlio.
CECLIA RITTO

     Passados 124 anos da chuvosa madrugada em que a famlia imperial brasileira embarcou em um navio rumo ao exlio, o melanclico fim da monarquia ganha um relato tingido de tristeza na voz de uma protagonista da histria  Maria Amanda Paranagu Dria, a baronesa de Loreto. Seu dirio, esquecido nos arquivos do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro (IHGB), no Rio de Janeiro, narra com riqueza de detalhes a jornada para a Europa do grupo que tinha  frente o j ex-imperador Pedro II  material que, recuperado recentemente, constar em um livro comemorativo da instituio. Outros dirios conhecidos versaram sobre a viagem, inclusive um do prprio dom Pedro. Mas das impresses de Maria Amanda, dama de companhia da imperatriz Teresa Cristina (chamada de Amandinha no crculo imperial), resulta uma viso particularmente tocante. O primeiro caderno, de 120 pginas, se encerra com o momento carregado de dor em que dom Pedro chora a morte de Teresa Cristina, trs semanas aps o desembarque em Portugal. "Esse tipo de dirio  rarssimo, j que poucas mulheres registravam suas memrias no Brasil imperial, e tem o mrito de documentar um importante captulo da histria sob o calor da emoo", avalia a historiadora Mary Del Priore. 
     O baro e a baronesa de Loreto acompanharam o imperador no exlio por vontade prpria, em demonstrao de fidelidade. Juntaram-se  comitiva de duas dezenas de integrantes que, dois dias depois de proclamada a Repblica, se dirigiu ao cais em tom de marcha fnebre, embalada pelo silncio do Rio de Janeiro que dormia. Foram de lancha at o cruzador Parnaba e, nele, at a enseada do Abrao, na altura de Angra dos Reis, quando se transferiram para o vapor Alagoas. "O mar estava um pouco agitado e, temendo enjoo, que me  inevitvel, fui entrincheirar-me no beliche, onde me deitei com vivas saudades e lembranas de origens diversas", anotou a baronesa na primeira de vinte noites ao mar. Em escrita simples e clara, ela destaca a nostalgia e a resignao dos passageiros, sobretudo de dom Pedro. Quase todas as menes a ele so acompanhadas da palavra "saudade". No se discutia poltica a bordo, s literatura. Ali, dom Pedro manteve o hbito das rodas de leitura noturnas, s quais ele prprio batizou de "conversaes saudosas". 
     A vida relativamente simples que a famlia imperial levava no Rio de Janeiro se reproduzia a bordo. No havia festas, banquetes ou roupa de gala; no dia do aniversrio do imperador, 2 de dezembro, abriu-se uma garrafa de champanhe, de que todos compartilharam. Ele ergueu-se com a taa em riste e disse: "Brindo  prosperidade do Brasil". A imperatriz no participou; sentia-se mal. "As outras senhoras estavam mais ou menos enjoadas e nem se mexiam  nas suas cadeiras", ressalta a baronesa. Dom Pedro fazia pouco-caso da maioria dos rituais, mas, mesmo assim, segundo o dirio, os almoos e jantares eram servidos sobre uma mesa devidamente aparelhada, e a princesa Isabel vivia escoltada por duas criadas. A falta de dinheiro no impedia que o imperador, como era seu costume no Brasil  fizesse generosas doaes. Amandinha relata que, numa escala na ilha de So Vicente, em Cabo Verde, ele fez questo de dar dinheiro a um padre, para que distribusse aos pobres. 
     A baronesa de Loreto tambm se estende sobre um dos maiores motivos de preocupao a bordo do Alagoas: o comportamento do neto mais velho do imperador, Pedro Augusto. Preparado desde criana para assumir o trono, Pedro Augusto  que tinha tendncias paranicas e viria a ser encerrado em um manicmio  sofreu surtos psicticos, os quais os demais passageiros atribuam  aflio que lhe causava a movimentao do navio encarregado de fazer a segurana do Alagoas. "Todas essas manobras s tm servido para assustar o prncipe dom Pedro Augusto, que, desde ontem, sofre de superexcitao nervosa, se acha possudo de pnico e pensa que estamos todos perdidos e no chegaremos a Lisboa. O seu estado  lastimvel", registra o dirio. Tambm a imperatriz Teresa Cristina viajava adoentada. Ela logo morreria vitimada por um infarto. A baronesa lana parte da culpa na Repblica: "Desde que saiu do Brasil, ela mostrava-se impressionada pelos horrorosos acontecimentos to sabidos. Eles, sem dvida, concorreram para a sua morte". 
     A cena mais pungente descrita no dirio  justamente a morte da imperatriz em um hotel simples da cidade do Porto, para onde havia se retirado. Dom Pedro tivera amantes; com uma delas, a condessa de Barral, manteve um romance de 26 anos que continuava vivo naquele momento. Mas, no quase meio sculo em que esteve casado com Teresa Cristina, apegara-se a ela e tratava-a com ternura. "Antes de soldar-se a urna, o imperador quis despedir-se da imperatriz e mandou chamar a todos ns para fazermos tambm nossas despedidas", escreveu a baronesa. "No se pode descrever a dor dos prncipes e a nossa. Beijamos-lhe a mo e choramos copiosamente sobre o seu corpo sem vida." O prprio dom Pedro, normalmente contido em suas reaes, no esconde a tristeza. "Ele abraou a sua muito amada  esposa soluando e foi logo retirado dali pelo Mota Maia (mdico da famlia). A princesa beijou sua santa me repetidas vezes; o mesmo fizeram os prncipes, e ns beijamos a mo de nossa imperatriz, que fora sempre to boa e carinhosa." O choro de dom Pedro era tambm por ele, que acabou morrendo dois anos depois, aos 66 anos, de pneumonia, no modesto hotel de Paris onde viveu o fim de seus dias. A baronesa de Loreto voltou com o marido ao Rio de Janeiro, onde morreu em 1931, aos 82 anos, sem jamais publicar seu relato da viagem que mudou tantas vidas e que agora, enfim, vem  tona. 


6#6 EXPOSIO  O JOALHEIRO DOS REIS  E DAS RAINHAS
Uma exposio no Grand Palais apresenta a trajetria da Cartier.  um espetculo de histria, arte, mundanidade  e, claro, muito, muito brilho.
MRIO SABINO, DE PARIS

     No Brasil, roubam-se joias  de pessoas, bancos e museus. Na Frana, ainda se pode us-las e exp-las, sem o risco de ter a garganta cortada ou levar um tiro na cabea. No  um incio glorioso para uma reportagem sobre a extraordinria exposio em cartaz no Salo de Honra do Grand Palais, em Paris, dedicada  histria da joalheria Cartier. Mas, para um brasileiro,  inevitvel pensar em seu prprio pas quando ele se v diante de um tesouro como o que est sendo exibido at 16 de fevereiro prximo. Pois , malandragem da Papuda e similares, o papo aqui  outro  sabe como , gente  para brilhar e para ver brilho, no para morrer de fome, bala ou esquistossomose via bandidos que afanam o Errio e, por tabela, a sade e a educao. 
     O nome da mostra  Cartier, o Estilo e a Histria. Mas o ttulo ideal seria "Cartier, Joalheiro dos Reis  e das Rainhas". Fundada em 1847, por Louis- Franois Cartier, a maison floresceu mesmo sob o comando do seu filho Louis Cartier. A partir do ltimo quarto do sculo XIX, no houve cabea coroada na Europa que no usasse uma joia Cartier especialmente criada para ela. Alis, essa histria de "joalheiro dos reis"  um achado de um monarca  o rei Eduardo VII, da Inglaterra, que encomendou 27 tiaras para a sua coroao, em 1901. Para ele, Cartier era "o joalheiro dos reis e o rei dos joalheiros". Ou seja, agregava muito, mas muito valor ao camarote, se  que voc entende... Cartier se tornou o fornecedor oficial da famlia real inglesa e de outras casas reais. Na exposio, h um broche em forma de flor, da coleo de Elizabeth II, com um magnfico diamante rosa. Outra preciosidade  o diadema Halo, de 1936, confeccionado em platina e  pasme  888 diamantes. O Halo foi usado por Catherine Middleton, duquesa de Cambridge, quando a magrinha se casou com o prncipe William, em 2011. 
     Ela, a ovelha negra, a americana divorciada, que fez o rei Eduardo VIII, da Inglaterra, abdicar por amor, tambm era cliente assdua. Pode-se dizer que Wallis Simpson, duquesa de Windsor, saiu da pobreza  e a pobreza saiu de dentro dela. No  fcil, no, ao contrrio do que possa parecer. E tornou-se rica com certa dose de fantasia, como d para verificar pelo broche em forma de flamingo encomendado por ela em 1940  platina, diamantes, esmeraldas, safiras e rubis. A fantasia, alis,  uma das marcas da Cartier. Em alguns casos, os smbolos por ela lanados se tornaram quase que arqutipos, como a pantera que representa a mulher livre e sedutora. 
     Uma das graas da exposio  apresentar joias ao lado de fotos e quadros em que os seus proprietrios originais as usam. Uma pintura de Giulio de Blaas, de 1929, retrata a americana Marjorie Merriweather Post com um broche magnfico de esmeraldas, que est logo ali, na vitrine  esquerda. No ano do crash na Bolsa de Nova York, a ento mulher mais rica dos Estados Unidos no parecia preocupada com o abalo na economia mundial. Alis, Louis Cartier teve o faro de instalar, no incio do sculo XX, uma filial na Amrica, onde estava o dinheiro novo e abundante. Atribui-se a ele a entrada triunfal de magnatas americanos, como Grace Vanderbilt, por exemplo, nos crculos da aristocracia francesa. 
     Ele era um apaixonado pela corte de Lus XVI e ajudou a reabilitar a figura de Maria Antonieta, fazendo a cabea de muitas mulheres, com o perdo do trocadilho voluntrio, por meio de tiaras, colares, objetos de decorao e broches que  como  que se diz, mesmo?  revisitavam o estilo da rainha guilhotinada. Os seus artesos se debruavam sobre cartapcios empoeirados, para desenhar as peas que fariam a fama da maison nos primeiros decnios. Ao longo dos anos, as inovaes tecnolgicas foram sendo incorporadas com rapidez pela Cartier, para criar os primeiros relgios de pulso (idealizados pelo brasileiro Santos Dumont) e as peas pioneiras de ao. 
     De reis e rainhas  burguesia da era industrial  com um grand finale de celebridades do jet set e estrelas de Hollywood. Da lista de clientes da Cartier, faziam parte Liz Taylor, com aqueles diamantes que ela amava mais do que os maridos, a radiosa Grace de Mnaco e a atriz mexicana Mara Flix, com os seus braceletes em forma de cobra e o jeito de madurona-propaganda de cigarrilhas. Arte, design, tecnologia, poder, mundanidade   possvel aprender um bocado de histria por intermdio da trajetria da Cartier. No, no Salo de Honra do Grand Palais, em cuja estrutura metlica dco so projetadas continuamente imagens de diamantes, no h um espacinho para a explorao desumana dos trabalhadores nas minas da frica do Sul, origem da maioria das pedras da Cartier. Mas por que bancarmos os chatos, no ? 
     Por ltimo, uma curiosidade: na mostra, h uma foto do ator Rodolfo Valentino, numa cena do filme O Filho do Sheik, de 1926, vestido de prncipe rabe  e usando um relgio Tank, da Cartier. Ele se esqueceu de tirar ou se recusou a faz-lo, no se sabe ao certo. J pensou se fosse no Brasil? Arrancavam-lhe o brao para roubar o relgio. 


6#7 IDEIAS  O GURU DA IOGA QUENTE
O indiano Bikram Choudhury  acusado por cinco alunas de abuso sexual nos EUA. Como tantos outros que so cultuados, ele se aproveitou do poder sobre os seguidores.
DUDA TEIXEIRA

     Os ensinamentos de vida e as promessas de iluminao espiritual so as matrias-primas com as quais os gurus das mais diversas vertentes angariam admiradores. A influncia desmedida sobre os seguidores pode ser mal utilizada quando  confundida com poder absoluto. O iogue indiano Bikram Choudhury, de 67 anos, que vive na Califrnia, nos Estados Unidos,  um desses gurus cuja fama veio acompanhada, na mesma proporo, de megalomania, egocentrismo e falta de limites. De sunga preta, relgios Rolex incrustados com joias e mais de uma dzia de carros Rolls-Royce, ele  o criador de um mtodo em que 26 posturas de ioga so realizadas em uma sequncia de noventa minutos em uma sala aquecida de 38 a 40 graus. Academias com seu nome se espalharam por dezenas de pases. Segundo os professores, o calor  benfico para as articulaes e para os rgos internos. Para Bikram, era uma forma de emular a sua Calcut natal. O calor excruciante nas aulas, porm,  o de menos para suas alunas. Neste ano, cinco o acusaram de assdio sexual ou estupro. Os relatos delas so parecidos. Bikram lanava-lhes olhares durante as aulas dos cursos intensivos que ministra duas vezes ao ano e  depois se aproximava. "Voc ser maior do que Madre Teresa, mas tem de me seguir. Fazer tudo o que eu disser. Eu sou o seu deus", teria dito a uma delas. Mais tarde, levava a vtima para uma sala onde ficavam sozinhos. Ele a beijava  fora e depois a estuprava. Uma das quatro escolas que usam seu mtodo no Brasil, fundada h dois anos no Rio de Janeiro, decidiu tirar o nome Bikram da fachada por causa das denncias. "Esse tipo de coisa acontece em qualquer lugar. Bikram no  um iluminado, mas sua hot ioga funciona", diz uma das scias, Yuri Scott, que foi aluna dele. 
     Nos cursos avanados de Bikram, os seguidores passam por sucessivas privaes, que incluem restries de gua, comida e sono. Alguns alunos desmaiam ou vomitam. A satisfao de passar por essas dificuldades compensa a dor momentnea e aumenta o sentimento de pertencer a um grupo. Os participantes tambm so forados a assistir a sesses de cinema indiano sem dormir, durante a noite, enquanto o guru recebe massagens de quatro ou cinco alunas. Recusar-se a se submeter a essa rotina esdrxula pode significar a expulso do curso, sem reembolso dos 11.000 dlares que foram pagos, e, at, da "comunidade" como um todo. Isso explica a dificuldade para denunciar o mestre. Nos relatos das mulheres abusadas, aparecem colegas aconselhando-as a esquecer o assdio para no perder o que conquistaram, fsica e espiritualmente, com tanto esforo. No faltam antecessores para Bikram imitar. De Bhagwan Rajneesh, o indiano que criou uma comunidade de sexo livre no Estado do Oregon, ele emula a ostentao material. Rajneesh tambm foi acusado de m conduta sexual, assim como os seus conterrneos Sathya Sai Baba, denunciado por um ex-seguidor, e Swami Muktananda, que, apesar de se dizer celibatrio, espionava as alunas em seus dormitrios e as examinava em uma mesa de ginecologista. Muitas acabavam cedendo a suas investidas. No  fcil dizer no aos gurus, e eles sabem disso. 


